terça-feira, maio 10, 2005

De Neruda a Cadilhe

Epopeia �Volta do Mundo!!
CHILE, 9 a 17 de MARÇO
Percorrendo a cordilheira da poesia, ritmada pelos sons da patagónia, fomos encontrar, dispersas entre ilhas e fiordes, estrofes que como barcos ganham musicalidade nas ondas do pacífico que as banha.
É que ora sacudidas pelos ventos da Antártida, ora moldada pelas areias de Atacama, as palavras ganham forma, ganham vida e crescem até explodirem pela boca dos vulcões da literatura chilena.
Este país em forma de língua, que estreita e comprida quase cai ao mar, tem inspirado uns dos maiores autores do nosso tempo que, rendidos aos contrastes da natureza e à condição de se encontrarem perdidos, ou achados, no fim do mundo, nos têm brindado com obras sem igual e que descrevem o Chile melhor que ninguém.
Desistimos do voo para Santiago e fizemo-nos à estrada, saindo da patagónia Argentina para entrar na chilena. Conduzidos pelas palavras de Isabel Allende, fizemos a nossa primeira paragem em Chiloé, «... um conjunto de ilhas no sul do país, frente a Puerto Montt, (...) tem uma cultura diferente da do resto do país e a gente está tão orgulhosa do seu isolamento que se opõe à construção duma ponte para unir a ilha grande a Puerto Montt. É um lugar tão extraordinário que todos os chilenos e turistas deveriam visitá-lo ao menos uma vez, ainda correndo o risco de ali ficar para sempre. Os chilotes vivem como há 100 anos, dedicados à agricultura, à pesca artesanal e à indústria do salmão. As casas são integralmente feitas em madeira, e no coração de cada casa há sempre uma lareira acesa para cozinhar e dar calor à família aos amigos e aos inimigos reunidos em seu redor.»
E assim é. Mergulhamos num Chile diferente, onde o tempo, em muitos aspectos, parece não ter passado. As gentes vivem vidas simples, mais tranquilas, sem acesso a muitos dos bens resultantes da civilização, dedicados exclusivamente àquilo que a natureza lhes provém. Foi uma experiência muito gira, onde gozámos de encontros inesperados com focas, lontras, pinguins e golfinhos, cujos hábitos nos foram relatados por pescadores chilotes que nos convidaram a subir para o seu barco para conhecer de mais perto estes habitantes sazonais.
De Chiloé seguimos para Norte, atravessámos Puerto Montt, parámos na cidade colonial alemã de Puerto Varas para almoçar, sentados de frente para o lago Llanquiqué, a acompanhar um peixe fresquíssimo, tínhamos a vista espectacular do vulcão que parecia nascer no lago onde reflectia o cume nevado e morrer no céu onde se perdia de vista, e mais adiante, enormes e evidentes, erguiam-se as colossais montanhas que marcam a fronteira com a Argentina. A caminho de Santiago, sem saber ainda quantos dias nos separavam da capital, visitámos Frutillar onde se mantém intacta a arquitectura colonial alemã, atravessamos Osorno e já cansados das muitas horas que tínhamos passado a guiar, começamos a estudar a possível paragem: Temulco, Los Angeles ou Concepcion? Tínhamos 3 hipóteses. Depois de ler o Guia, concluímos que Temulco seria sem dúvida a melhor opção, com fortes raízes Mapuche e fruto da conturbada história chilena, a cidade tinha ainda a seu favor a presença de Neruda. O Poeta nascera a poucos quilómetros dali, e a assinalar o facto surgia-nos o apetecível hotel continental, onde Neruda ficava hospedado sempre que vinha visitar a sua terra natal. Este é um dos mais antigos hotéis do Chile, já com 113 anos conta com um reportório de hóspedes invejável: Neruda, Gabriela Mistral e Salvador Allende são alguns dos nomes que figuram no livro de entradas.
Estava decidido. Áqueles nomes iríamos acrescentar os nossos. Iríamos em busca dos vestígios de Neruda, duma época, duma história.
O Hotel é um casarão do Séc. XIX, com chão, tecto e portadas de madeira, com mobília da mesma época, corredores compridos e enormes salões. A madeira estala com o andar e os tectos chiam com os pombos que ali fazem o ninho, tem o cheiro das casas antigas, a madeira fechada, à casa das tias e à casa do monte, sente-se a presença das gentes passadas agora difusa no eco do vazio, histórias encerradas nas paredes e empregados minguados pelo tempo, tornam-no irresistível.
Resolvemos ficar, seguir o rasto do Poeta e imaginar as histórias que nos poderiam contar as paredes, se falassem.
A essas histórias, estávamos nós, prestes a somar mais uma...
Quando fui fazer o Check-in reparei que havia outro Português que tinha acabado de entrar, com o dedo percorri a linha até chegar ao nome: Gonçalo Cadilhe.
Eu não queria acreditar e perguntei se aquele livro era actual. Nós que acompanhamos todas as crónicas da volta ao mundo estávamos a um passo, ou a uma parede do autor! O Gonçalo estava ali, em pleno Chile, no mesmo hotel e no quarto ao lado do nosso. Encorajados pela tia e pelo Rodrigo, eu e o Diogo fomos bater-lhe à porta. E agora, e se ele já está deitado, e se o vamos acordar...Bom o melhor é mesmo não pensar, pulso firme, mão fechada e truz, truz! A Porta abriu-se e decidi fazer as apresentações, e os devidos elogios, afinal grande parte da rota da nossa viagem tinha sido inspirada naquelas crónicas que, semanalmente nos faziam acreditar ser possível. Não estava a dormir, e prontamente nos desafiou para jantar. Chamámos o Rodrigo e lá fomos. 4 portugueses sentados numa simpática mesa num primeiro andar duma ruela de Temulco, contaram, pela noite fora, entre brindes e gargalhadas, as aventuras e desventuras desta experiência que tem sido viajar por este mundo. O mesmo mundo, olhares diferentes, encontros surpreendentes, experiências paralelas. O assunto é inesgotável. De facto, melhor que o fantasma de Neruda, só o próprio Gonçalo Cadilhe, que mesmo sem saber tanto tinha contribuído para a nossa viagem.

Próxima paragem: Santiago, a capital. Essa capital tão bem descrita por Allende em “Meu país inventado”:

“A capital fue fundada por soldados a golpe de espada y pala, com el trazado clássico de las ciudades españolas de antaño: una plaza de armas al centro, de donde saliam calles paralelas e perpendiculares. (...) Seria una ciudad bonita porque es limpia e no le faltan parques , si no tivera encima un sombrero pardo de poluición, que en invierno mata infantes en las cunas, ancianos en los asilos y pájaros en el aire...”

Eu devo apenas acrescentar que há dias em que o tal smog, ou a falta dele, deixa ver uma Santiago emoldurada por montanhas de cumes nevados, uma cidade civilizada e organizada por bairros dispostos segundo as classes sociais dos seus moradores. Organização que chega a confundir-se com preconceito, com marginalização e com snobismo. Nada que não vejamos também pelo nosso querido Portugal, a geografia social, se assim a podemos chamar...Mas foi também aí que nos cruzamos com uma simpática chilena que parou a sua vida para socorrer 4 portugueses perdidos pelas imensas ruas de Santiago, acompanhou-nos no metro e no táxi e só descansou quando nos viu no caminho certo.
Deixámos a capital, depois de duas noites, e seguimos de autocarro e mochilas às costas, para Viña del mar, vila piscatória hoje transformada em estância de Verão,

“...y aun cuando com los ojos vendados me passearam por el mundo entero tratando de perderme por sus camiños, com los ojos vendados me bastaria respirar hondo, tan solo una vez, para saber que me encuentro en Viña del mar.”
É assim que Maria Luísa Pombal descreve o lugar onde nasceu.

Ora foi lá bem perto, em Reñaca, numa varanda com vista para o mar e para uma animada colónia de lobos-marinhos, que, em conversa com um pescador, soubemos o que diz o povo do seu país, diz que Deus fez o mundo em 7 dias e no oitavo, já cansado, atirou para aquele canto do mundo todas as sobras dos demais países: mar, neve, montanhas e planíces. É com este dito popular que os chilenos justificam tanta diversidade e todas as maravilhas naturais que se concentram naquela linha estreita.
Dali visitámos Valparaíso, cidade antiga, costeira, de ruelas estreitas e casas que encavalitadas umas nas outras tentam espreitar o mar. Numa dessas casas bem lá no alto entre telhados e chaminés ergue-se, a Sebastiana, a casa de Pablo Nerura, casa que ele construiu e nós visitámos.

“...ya no pensemos más: esta es la casa, ya todo lo que falta será azul, lo que necesita es florecer, y eso es trabajo de la primavera.” P.N

E foi assim, de palavra em palavra, de estrofe em estrofe de vírgula em vírgula que percorremos o Chile. Afinal estes “vulcões das palavras” com as suas obras convidam-nos a conhecer a sua casa e imortalizam um país, as suas paisagens, as suas gentes, os sabores e os odores, experiências que assim vividas possibilitam as nossas.

“ Noche, nieve y arena hacem la forma
de mi delgada patria,
todo el silencio está en su larga línea,
toda la espumas sale de su barba marina,
todo el carbón la llena de misteriosos besos.”
Pablo Neruda

terça-feira, abril 12, 2005


Santiago do Chile

Encontro com Gonçalo Cadilhe, Hotel Continental, Temulco-Chile

Lobos do mar, vista da nossa janela em Reñaca, Chile

Vista da casa de Pablo Neruda em Valparaíso

Valparaíso, Chile

Vina del Mar, Chile

Um bjo a Pablo Neruda, na sua Casa em Valparaíso, hoje convertida em museo- La Sebastiana

Valparaíso, Chile (amigas voces percebem o porquê desta foto...os olhos que eu passo a vida a desenhar...)

Valparaíso, Chile

Como Agua para Chocolate, Restaurante Santiago do Chile

Pinguins em Chiloe, Chile

Chiloe, Ilhas no sul do Chile

Patagonia, Argentina

La Boca, Buenos Aires

Tango, em Buenos Aires

O Rodrigo com o pé na Argentina e a mão no Chile, depois do rafting no Rio Manso

Base do Glaciar Tornador e Glaciar preto, patagonia, Argentina

Patagonia, Argentina

No Topo do Cerro catedral, em Bariloche

Mountain bike, Cerro Catedral, Bariloche Argentina

terça-feira, março 29, 2005

Argentina

Epopeia � Volta do Mundo!!
Argentina (27 de Fev. a 9 de Março)

A Argentina já vai longe, e a preguiça de escrever tem-se acentuado com a aproximação da nossa chegada a casa. Não quero, no entanto, deixar de vos manter a par destes últimos capítulos de uma novela que já vai longa e que têm seguido tão atentamente.

De Lima voamos para Buenos Aires, continuamos os 4, apesar de dois serem portadores de passaportes emitidos no Peru. Na verdade a questão da identidade foi testada logo à chegada ao aeroporto de Lima, em que a fila para o Check in se dividia entre portadores de passaportes nacionais e estrangeiros. A tia e o Rodrigo olharam de esguelha para o documento que traziam na mão e hesitantes avançaram para a fila destinada aos estrangeiros.

Fora estas pequeníssimas peripécias chegamos em grande a Buenos Aires, cidade de ritmos e etnias que ao som do tango se fundem tornando-a numa Capital cheia de cores. É Domingo e é dia de feira na Recoleta. Milhões de tendas e toldos desfilam naquele jardim: pinturas e artesanato, roupa da moda e criações de estilistas experimentais, prata e vidro chamam para aquele espaço centenas de pessoas que ali perdem a cabeça com tanta pechincha -principalmente para nós Euro(peus)-, e que se deixam ficar até altas horas da noite para assistir aos diversos concertos que aos poucos roubam o lugar à feira.
Os quatro tugas estiveram em grande, a tia Isabel comprou um cachecol de cada cor, o Rodrigo até recorreu a um provador improvisado para experimentar a bela da calça radical, o Diogo negociava arte quando o Rodrigo com a melhor das intenções sacou uma foto com as ditas ao fundo e que originou a revolta da familia do artista acusando-nos de querer fazer uma réplica e eu claro, estava nas sete quintas com tanta bugiganga nem sabia para onde me virar!

Quanto à cidade, é enorme e tem tanta coisa para se ver e fazer que os dias passaram a correr. La Boca é obrigatório. Trata-se de um bairro ribeirinho criado por emigrantes italianos que aproveitando os desperdícios industriais pintavam as casas de cores garridas. Para acompanhar a explosão de cor deste bairro, a cada esquina, rebentam demonstrações de tango, que acabam ou começam no famoso Caminito, caminho pedonal com nome de um tango popular.
Passamos no famoso estádio Boca Junior, onde o Diogo comprou uma camisola do Maradona, “talvez assim saia do banco de suplentes”, ouvi-o dizer entre dentes...

Deixamos San Telmo e depois de espreitar o teatro Cólon, seguimos para a Praça principal, onde Evita Perón, da varanda da agora residência presidencial, fazia os discursos ao povo. Ali visitamos ainda o tumulo do Libertador San Martin e aprendemos um bocadinho mais da historia deste país.

Numa das Noites, como não podia deixar de ser, fomos ao Tango. O show escolhido foi o Sr. Tango, com direito a jantar seguido de um espetáculo de sensualidade e ritmos bem cantados e belissimamente dançados. Esta que começou por ser uma dança de rua, dançada pelas chamadas mulheres de vida fácil, é hoje símbolo nacional, apaixonando multidões.

E foi em bom ritmo que nos despedimos desta capital de estilo europeu, há até quem a chame a Paris da América do Sul.

Inspirados pelos relatos, embora curtos, do primo Filipe voamos para Bariloche, onde este viveu alguns anos. Aqui encontra-se a maior estância de ski da América do Sul, mas é igualmente movimentado no verão. Situada em plena região dos lagos, e com o charme duma vila de montanha, esta região é dotada de uma beleza singular. Alugamos um carro e pusemo-nos à descoberta daquelas terras encantadas que nos remetem para os contos de fadas e duendes, estrunfes e trols, que em criança nos faziam sonhar e que agora podemos reencontrar.

Mas deixemos as historias encantadas para a noite, durante o dia impulsionados pelo espírito radical dos irmãos Cunha dedicávamo-nos à Aventura: começamos por um rafting classe 3 e 4 no Rio Manso, que de Manso só tinha mesmo o nome, situado em plena floresta patagónica estende-se até ao Chile. Mais uma vez, quem acabou por surpreender tudo e todos, foi a já apelidada mãe radical. Pois é, a Tia Isabelinha dominou e até saltou do barco de livre e espontânea vontade para sentir na pele e a nado as emoções do rápido. Foi só rir e o Alexandre, o nosso instrutor, ajudou à festa sempre a comandar a boa disposição da equipa.
Foi também com o Alexandre que conhecemos a ciência e os segredos do tão indispensável Mate, um chá verde e amargo, servido num cabaça que passa de mão em mão obedecendo a um ritual em que todos chupam pela mesma boquilha metálica. Para onde quer que vão, os argentinos não esquecem o seu quite de mate: a cabaça, a erva, a boquilha e um termos com água quente constituem bagagem obrigatória.

No dia seguinte, não contentes com as dores musculares que a brincadeira do rafting causou aos elementos do sexo feminino, os irmãos Cunha, arranjaram-nos um programa mais calminho: Mountain bike! A idéia era descer o Cerro Catedral (a montanha mais alta da estância agora sem neve), mas quando lá chegamos eu e a tia constatamos que aquilo não era para nós e fizemos um percurso mais soft. O cerro era tão inclinado que tivemos que descer as duas agarradas aos travões e o desafio era tentar evitar a chamada égua. Quanto aos manos, não só começaram bem mais acima, como ainda os vimos passar a 100 à hora com ar de alucinados e os capacetes de lado..lá se foram as calças radicais do Rodrigo...!

No dia seguinte ditamos nós o programa, havia que relaxar os músculos e saborear as paisagens. Fizemos a belíssima estrada dos 7 lagos. As cores sucediam-se num contraste de luz e som. O dia estava cinzento, a chuva não dava tréguas e a iluminar o céu, relâmpagos que furiosos caiam nos lagos, que dizem ser azuis. A longa e bela estrada de terra era agora um lamaçal infinito. Não foi de facto o melhor dia para fazer os 7 lagos.

Mas a fúria dos céus também nos brindou com uma neve inesperada que pintou de branco os cumes das montanhas tornando a nossa ida ao Glaciar Tornador ainda mais espetacular. Agora sim, lagos de cores nunca antes vistas contrastavam com as densas florestas verdes abrigadas entre enormes montanhas manchadas de branco e vulcões adormecidos tatuados por dezenas de quedas de água que descem as suas paredes. E sobressaindo entre todos, lá estava ele, todo vestido de branco, imponente e gelado, um imenso bloco de gelo que rompe a floresta e quase toca os céus. Uma paisagem impressionante, acentuada pelo singular Vestiquero Negro, um glaciar preto que contrastando com o outro se confunde num cenário lunar.

Decisão unânime foi o cruzeiro pelo Lago Nahuel Huapi, que nos levou a conhecer um bosque único no mundo, repleto de arvores encarnadas, finas compridas e geladas (cujo nome se me varreu) e ainda a ilha vitória com vistas espetaculares sobre o lago que alcançavam o famoso hotel Llau Llau, cujo orçamento apertado não nos permitiu conhecer mais de perto.

Também houve tempos de descontração em que sem planos deambulamos por aquelas paisagens, e foi numa dessas tardes que, a caminho de Vila Angustura, descobrimos Puerto Manzano, chalés de madeira estilo suíço escondidos no meio de arvores e achados nas margens do lago em que se debruçam, transportam-nos de imediato para um daqueles contos encantados fazendo-nos seus personagens. Modernos ou rústicos, grandes ou pequenos, o bom gosto impera neste pequeno porto de montanha. Não resistimos e mudamo-nos para aqui na última noite, antes de seguirmos rumo ao Chile, mas sempre com o tango no coração:
“Don´t cry for me Argentina the truth is I never left you...”

Argentina

Epopeia � Volta do Mundo!!
Argentina (27 de Fev. a 9 de Março)

A Argentina já vai longe, e a preguiça de escrever tem-se acentuado com a aproximação da nossa chegada a casa. Não quero, no entanto, deixar de vos manter a par destes últimos capítulos de uma novela que já vai longa e que têm seguido tão atentamente.

De Lima voamos para Buenos Aires, continuamos os 4, apesar de dois serem portadores de passaportes emitidos no Peru. Na verdade a questão da identidade foi testada logo à chegada ao aeroporto de Lima, em que a fila para o Check in se dividia entre portadores de passaportes nacionais e estrangeiros. A tia e o Rodrigo olharam de esguelha para o documento que traziam na mão e hesitantes avançaram para a fila destinada aos estrangeiros.

Fora estas pequeníssimas peripécias chegamos em grande a Buenos Aires, cidade de ritmos e etnias que ao som do tango se fundem tornando-a numa Capital cheia de cores. É Domingo e é dia de feira na Recoleta. Milhões de tendas e toldos desfilam naquele jardim: pinturas e artesanato, roupa da moda e criações de estilistas experimentais, prata e vidro chamam para aquele espaço centenas de pessoas que ali perdem a cabeça com tanta pechincha -principalmente para nós Euro(peus)-, e que se deixam ficar até altas horas da noite para assistir aos diversos concertos que aos poucos roubam o lugar à feira.
Os quatro tugas estiveram em grande, a tia Isabel comprou um cachecol de cada cor, o Rodrigo até recorreu a um provador improvisado para experimentar a bela da calça radical, o Diogo negociava arte quando o Rodrigo com a melhor das intenções sacou uma foto com as ditas ao fundo e que originou a revolta da familia do artista acusando-nos de querer fazer uma réplica e eu claro, estava nas sete quintas com tanta bugiganga nem sabia para onde me virar!

Quanto à cidade, é enorme e tem tanta coisa para se ver e fazer que os dias passaram a correr. La Boca é obrigatório. Trata-se de um bairro ribeirinho criado por emigrantes italianos que aproveitando os desperdícios industriais pintavam as casas de cores garridas. Para acompanhar a explosão de cor deste bairro, a cada esquina, rebentam demonstrações de tango, que acabam ou começam no famoso Caminito, caminho pedonal com nome de um tango popular.
Passamos no famoso estádio Boca Junior, onde o Diogo comprou uma camisola do Maradona, “talvez assim saia do banco de suplentes”, ouvi-o dizer entre dentes...

Deixamos San Telmo e depois de espreitar o teatro Cólon, seguimos para a Praça principal, onde Evita Perón, da varanda da agora residência presidencial, fazia os discursos ao povo. Ali visitamos ainda o tumulo do Libertador San Martin e aprendemos um bocadinho mais da historia deste país.

Numa das Noites, como não podia deixar de ser, fomos ao Tango. O show escolhido foi o Sr. Tango, com direito a jantar seguido de um espetáculo de sensualidade e ritmos bem cantados e belissimamente dançados. Esta que começou por ser uma dança de rua, dançada pelas chamadas mulheres de vida fácil, é hoje símbolo nacional, apaixonando multidões.

E foi em bom ritmo que nos despedimos desta capital de estilo europeu, há até quem a chame a Paris da América do Sul.

Inspirados pelos relatos, embora curtos, do primo Filipe voamos para Bariloche, onde este viveu alguns anos. Aqui encontra-se a maior estância de ski da América do Sul, mas é igualmente movimentado no verão. Situada em plena região dos lagos, e com o charme duma vila de montanha, esta região é dotada de uma beleza singular. Alugamos um carro e pusemo-nos à descoberta daquelas terras encantadas que nos remetem para os contos de fadas e duendes, estrunfes e trols, que em criança nos faziam sonhar e que agora podemos reencontrar.

Mas deixemos as historias encantadas para a noite, durante o dia impulsionados pelo espírito radical dos irmãos Cunha dedicávamo-nos à Aventura: começamos por um rafting classe 3 e 4 no Rio Manso, que de Manso só tinha mesmo o nome, situado em plena floresta patagónica estende-se até ao Chile. Mais uma vez, quem acabou por surpreender tudo e todos, foi a já apelidada mãe radical. Pois é, a Tia Isabelinha dominou e até saltou do barco de livre e espontânea vontade para sentir na pele e a nado as emoções do rápido. Foi só rir e o Alexandre, o nosso instrutor, ajudou à festa sempre a comandar a boa disposição da equipa.
Foi também com o Alexandre que conhecemos a ciência e os segredos do tão indispensável Mate, um chá verde e amargo, servido num cabaça que passa de mão em mão obedecendo a um ritual em que todos chupam pela mesma boquilha metálica. Para onde quer que vão, os argentinos não esquecem o seu quite de mate: a cabaça, a erva, a boquilha e um termos com água quente constituem bagagem obrigatória.

No dia seguinte, não contentes com as dores musculares que a brincadeira do rafting causou aos elementos do sexo feminino, os irmãos Cunha, arranjaram-nos um programa mais calminho: Mountain bike! A idéia era descer o Cerro Catedral (a montanha mais alta da estância agora sem neve), mas quando lá chegamos eu e a tia constatamos que aquilo não era para nós e fizemos um percurso mais soft. O cerro era tão inclinado que tivemos que descer as duas agarradas aos travões e o desafio era tentar evitar a chamada égua. Quanto aos manos, não só começaram bem mais acima, como ainda os vimos passar a 100 à hora com ar de alucinados e os capacetes de lado..lá se foram as calças radicais do Rodrigo...!

No dia seguinte ditamos nós o programa, havia que relaxar os músculos e saborear as paisagens. Fizemos a belíssima estrada dos 7 lagos. As cores sucediam-se num contraste de luz e som. O dia estava cinzento, a chuva não dava tréguas e a iluminar o céu, relâmpagos que furiosos caiam nos lagos, que dizem ser azuis. A longa e bela estrada de terra era agora um lamaçal infinito. Não foi de facto o melhor dia para fazer os 7 lagos.

Mas a fúria dos céus também nos brindou com uma neve inesperada que pintou de branco os cumes das montanhas tornando a nossa ida ao Glaciar Tornador ainda mais espetacular. Agora sim, lagos de cores nunca antes vistas contrastavam com as densas florestas verdes abrigadas entre enormes montanhas manchadas de branco e vulcões adormecidos tatuados por dezenas de quedas de água que descem as suas paredes. E sobressaindo entre todos, lá estava ele, todo vestido de branco, imponente e gelado, um imenso bloco de gelo que rompe a floresta e quase toca os céus. Uma paisagem impressionante, acentuada pelo singular Vestiquero Negro, um glaciar preto que contrastando com o outro se confunde num cenário lunar.

Decisão unânime foi o cruzeiro pelo Lago Nahuel Huapi, que nos levou a conhecer um bosque único no mundo, repleto de arvores encarnadas, finas compridas e geladas (cujo nome se me varreu) e ainda a ilha vitória com vistas espetaculares sobre o lago que alcançavam o famoso hotel Llau Llau, cujo orçamento apertado não nos permitiu conhecer mais de perto.

Também houve tempos de descontração em que sem planos deambulamos por aquelas paisagens, e foi numa dessas tardes que, a caminho de Vila Angustura, descobrimos Puerto Manzano, chalés de madeira estilo suíço escondidos no meio de arvores e achados nas margens do lago em que se debruçam, transportam-nos de imediato para um daqueles contos encantados fazendo-nos seus personagens. Modernos ou rústicos, grandes ou pequenos, o bom gosto impera neste pequeno porto de montanha. Não resistimos e mudamo-nos para aqui na última noite, antes de seguirmos rumo ao Chile, mas sempre com o tango no coração:
“Don´t cry for me Argentina the truth is I never left you...”


quarta-feira, março 16, 2005

PERU, 17 a 27 de Fev.

Epopeia � Volta do Mundo!!
Relato do recém chegado a esta Epopeia, tal como ao Zé, também me calhou a mim...
(Texto intercalado com as respectivas fotos)

Dia 17 de Fevereiro,
O dia mais esperado desde 1 de Outubro, após 4 longos meses e meio iria reencontrar os 2 Tecos, nao em Portugal, mas sim no Peru. A longa viagem de Lisboa a Lima (cerca de 15 horas) foi rapidamente esquecida mal o aviao tocou o solo, agora a expectativa era enorme. Mal saí da porta e olhei para aquele mar de gente (uma quantidade de pessoas que jamais tinha visto em algum aeroporto) veio-me à cabeca a fabulosa crónica neste blog do meu amigo Zezinho sobre o Hawaii, aquela onda de gente prestes a engolir-nos, a agarrar-nos, e nós a remar para sair da rebentacao procurava-mos, como bons surfistas, as nossas 2 pequenas ondas naquele mar. Até que là as encontramos, radiantes e com um brilho intenso nos olhos, quase uma lágrima, ou talvez tenha sido algo que estranhamente terá afectado os olhos de todos nós...
Após nos termos deixado enrolar em abraços, beijos, sorrisos e entregues os devidos cumprimentos de todos os amigos e amigas dos tecos (foi uma tarefa dificil mas alguem tinha que o fazer) lá seguimos para o hotel em Lima.

Dia 18 a 20
Voamos logo de manha para Puerto Maldonado (cerca de 2 horas) era a 1a vez que ia para o meio da selva (selva Amazonica), e foi sem duvida um dos melhores sitios em que estive até agora. Ficámos num lodge espectacular, vejam na net que vale a pena (www.inkaterra.com) reserva de Tambopata, faz fronteira com o Brasil e com a Bolivia, sao cabanas em madeira estilo lounge com 2 camas, WC e 2 redes na varanda e, como viajamos com os 2 Tecos nao podiamos deixar de ter sorte, as nossas cabanas ficavam na 1a fila com vista para o rio Madre Dios, um afluente do Amazonas. Podem imaginar os fins de tarde e o nascer do dia na rede a olhar para o rio, simplesmente magnifico!

Aqui na selva os dias parecem mais longos, começam cedo, acordamos às 5 da matina, tomamos o pequeno almoço com um simpatico tucano que se fazia às fotografias, a que dei o nome de Guaraná e, por volta das 5h30, a nossa guia Rocio Carolina, muito simpatica e uma excelente profissional, ia-nos buscar para a excursao do dia. Andavamos cerca de 4 a 5h com enormes galochas, vimos macacos de varias especies, papagaios, uma àguia em vias de extinçao, tarantulas, borboletas de varias cores e feitios, e numa excursao nocturna ao rio, vimos caimoes (especie de crocodilos). Nadamos num Lago espetacular (Lago Sandoval) e foi aqui que começamos a descobrir que temos uma mae radical, até mergulhos da canoa deu, com nota 10 para o estilo! Neste mesmo lago vimos uma simpatica família de 6 lontras muito cómicas e infelizmente tambem em vias de extinçao, andamos por pontes suspensas nas àrvores a cerca de 30 metros, a radical incluída (por esta altura a minha mae passou a ter este nome, decisao unanime).
Fizemos todas estas excursoes com um simpatico casal de Finlandeses ele, Jan, Engenheiro de 36 anos, ela, Kirsten, Professora de Piano de 29 anos, que, como qualquer habitante do norte da Europa, sao de trato formal, mais frios que nosotros. Situaçao que viría a mudar depois de se cruzarem com os 4 tugas. Numa das muitas excursoes realizadas, esta à ilha dos macacos, tivemos de andar com àgua pelo joelhos, excepçao feita à minha mae que conseguiu enterrar-se até a cintura, resultado... gargalhada geral, os macacos a assistirem e os finlandeses nao se contiveram e partiram-se a rir, depois deste episodio e durante os varios jantares juntos ou o Jan começava a rir mal olhava para a minha mae ou era esta que se perdia em ataques de riso, aliás esta situaçao tem-se repetido vezes sem conta.

cair do dia na selva Posted by Hello

pequeno almoço às 5 da matina com o simpatico tucano. Posted by Hello

Encontro com Panchita na Selva Posted by Hello

Apos o mergulho no Lago Sandoval Posted by Hello

Nas aguas da Selva Posted by Hello

Lago Sandoval Posted by Hello

A caminho do Lago Sandoval, Reserva de Tambopata. Posted by Hello

A sacar agua das botas depois de tentativa de fuga na Ilha dos Macacos Posted by Hello

Na Ilha dos macacos, Puerto Maldonado Posted by Hello

Mae Radical nas Pontes suspensas em plena selva amazonica Posted by Hello

Com os Filandeses Jan e Kirsten, nossos companheiros de expediçao Posted by Hello

A nossa guia Rocio Carolina Posted by Hello

No rio Madre Dios, Selva amazonica Posted by Hello

De manha era checkar as botas para nao ter surpresas... Posted by Hello
Epopeia � Volta do Mundo!!
Dia 21
Partimos para Machu Picchu num comboio que seguia junto ao rio em plena cordilheira dos Andes e com paisagens do outro mundo. Entretidos a devorar umas boas maçarocas de milho com queijo fresco que entretanto tinhamos comprado pela janela do comboio, após 4h30, chegámos a famosa cidade Inca de Machu Picchu (pensa-se que era uma cidade de rituais). Acreditem que tudo o que se escreveu e se disse sobre este lugar está subvalorizado, olhar para esta antiga cidade Inca é um assombro, sente-se que estamos perante algo mágico e que nos transmite uma energia indiscritivel, sem dúvida uma das maravilhas deste mundo. Foi também aqui que, por alguma arte magica, a carteira da minha mae com cartoes de credito e passaportes (meu e dela) se evaporou. Talvez por o Peru me deixar muitas saudades, a nossa carteira tenha decidido prolongar a sua estadia (este pequeno incidente foi mais tarde e depois de muito engenho resolvido, acabámos só por perder a visita a umas ilhas típicas no famoso lago Titicaca, onde deixámos os dois Tecos para nos fazerem o relato).

Machu Picchu, um espetaculo! Posted by Hello